Ceratite filamentar é uma afecção de curso crônico, uni ou bilateral (maioria associada a olho seco), recorrente, podendo ser assimétrica. É caracterizada pela presença de finos filamentos de muco e células epiteliais em descamação que estão aderidas, por uma de suas extremidades, à face anterior da córnea.

Muitos pacientes com ceratite filamentar têm, subjacente, condições sistêmicas e/ou doenças do tecido conjuntivo. A condição pode ser mais comum em mulheres e idosos.

Fatores de risco para a Ceratite Filamentar

- Olho seco grave (causa mais comum), frequentemente associado a doenças sistêmicas autoimunes, como Síndrome de Sjogren e artrite reumatoide. Pode existir outras associações, tais como:

- Blefaritecrônica;

- Ceratite herpética (simples e zóster);

- Ceratoconjuntivite límbica superior;

- Ceratopatianeurotrófica;

- Ceratopatiabolhosa;

- Oclusão prolongada (p. ex.: pós-operatório, após abrasão corneana);

- Cirurgias oculares;

- Trauma cirúrgico e ocular.

Sinais e sintomas da Ceratite Filamentar

- Os sintomas são inespecíficos. Os pacientes relatam dor moderada a intensa, sensação de corpo estranho que pode piorar com o piscar, devido à tração dos filamentos nos seus pontos de aderência. Outros sintomas predominantes são: ardência, fotofobia, hiperemia, oscilação da visão e irritação ocular. Os sintomas estão relacionados, principalmente, com a doença de base;

- Sinais: hiperemia, lacrimejamento, diminuição da sensibilidade da córnea, filamentos corneanos, erosão epitelial da córnea e ceratitepuntacta superficial. Os outros sinais estão relacionados com a doença de base.

Diagnóstico diferencial da Ceratite Filamentar

- Erosões epiteliais corneanas recorrentes;

- Ceratite cristalina infecciosa;

- Ceratite herpética (simples e zóster);

- Ceratoconjuntivite límbica superior;

- Ceratopatia neurotrófica;

- Ceratopatia bolhosa;

- Ceratite pontilhada superficial de Thygeson.

Comprovação diagnóstica da Ceratite Filamentar

- Biomicroscopia: os filamentos de muco aderidos ao epitélio corneano são melhor observados com instilação de corante vital rosa bengala, lissamina verde ou fluoresceína. Em alguns casos, observa-se epiteliopatiapuntata e diminuição do tempo de ruptura do filme lacrimal;

- Teste de Schirmer e sensibilidade corneana podem estar alterados, dependendo da doença de base;

- Citologia de impressão conjuntival: podem determinar alterações metaplásicas escamosas e expressão de marcadores inflamatórios das células epiteliais da conjuntiva.

Como cuidar do paciente da Ceratite Filamentar

- Sempre determinar a causa desta condição antes de iniciar a terapia;

- A terapêutica adequada visa ao alívio dos sintomas e a manter a integridade da superfície e o equilíbrio da superfície ocular. Conhecer e tratar a doença de base, associado à remoção mecânica cuidadosa dos filamentos. Este procedimento é melhor realizado à lâmpada de fenda após a instilação de anestésico tópico. Os tratamentos propostos incluem lágrimas artificiais sem conservantes, esteroides e anti-inflamatórios nãoesteroides tópicos, oclusão dos pontos lacrimais (dependendo da gravidade do caso);

- Nos casos graves, o uso de mucolíticos tópicos, como N-acetilcisteína (5%-10%), diminui a viscosidade do muco. Estão disponíveis em farmácias de manipulação e devem permanecer refrigerados, com duração máxima de 4 semanas;

- Estudos mostram que diclofenaco de sódio a 0,1% instilado,1 gota 4 × ao dia, durante 28 dias, pode ser uma terapia eficaz e segura em pacientes com ceratite filamentar causadas pela doença de Sjogren secundária;

- Lente de contato terapêutica pode ser utilizada no tratamento de ceratite filamentar. Preconiza-se instilação de antibioticoterapia tópica profilática até 24 h após o desaparecimento dos filamentos associados àcorticoterapia tópica. Esses pacientes necessitam de um acompanhamento rigoroso, por causa do risco de infecção.

Evolução e prognóstico na Ceratite Filamentar

Ceratite filamentar pode ser uma condição crônica, recorrente e debilitante. Com uma abordagem sistêmica do diagnóstico e tratamento, a doença pode ser efetivamente controlada e a incidência e gravidade das recidivas minimizadas.

Prevenção na Ceratite Filamentar

- Aconselhamento do paciente é um componente essencial;

- É propenso a exacerbações agudas, por isso, terapia de manutenção contínua pode ser necessária para reduzir a incidência e gravidade das exacerbações;

- Monitorização (3 a 6 meses) regular da estabilidade da superfície ocular em indivíduos que apresentem maior risco deve ser orientada.

Avanços para a Ceratite Filamentar

Em casos muito graves, o controle da doença pode ser eficaz com o uso de tacrolimus tópico pomada ou colírio a 0,03%.

Você deve se lembrar

- Ceratite filamentar não é uma doença. É um sinal de disfunção grave da superfície ocular;

- Controle do fator inflamatório da superfície ocular deve ser considerado na terapêutica;

- A doença que mais causa ceratite filamentar é o olho seco (mais recentemente conhecida como disfunção do filme lacrimal);

- Sempre determinar a causa desta condição antes de iniciar a terapia.

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Dr. Richard Yudi Hida e Dr. Fernando Eiji Sakassegawa Naves

Farmacologia e terapêutica ocular, tema oficial 2013: Conselho Brasileiro de Oftalmologia/ Marcos Ávila e Augusto Paranhos Jr. – 1. ed. – Rio de Janeiro