Inflamação da conjuntiva causada por mecanismo de hipersensibilidade do tipo I e/ou IV.

Classificação

  - Aguda:

Conjuntivite alérgica aguda

Conjuntivite alérgica sazonal

- Crônica:

Conjuntivite alérgica perene

Ceratoconjuntivite primaveril

Ceratoconjuntiviteatópica

Conjuntivite papilar gigante

Fatores de risco para alergia ocular

Portadores de alergia ocular geralmente estão aptos a identificar o fator desencadeante da crise alérgica, que pode variar desde mudança de clima até viagem ou reforma da casa.

Sinais e sintomas da alergia ocular

A alergia ocular é caracterizada pelo prurido, isto é, não existe alergia ocular sem prurido. Durante as crises, além do prurido, os pacientes podem queixar-se de olho vermelho, lacrimejamento, fotofobia e, quando há envolvimento corneal, de visão embaçada e dor.

Conjuntivite alérgica aguda é uma reação alérgica súbita que geralmente não dura mais que 24 horas.

A queixa principal é o prurido e o lacrimejamento em grande quantidade. As pálpebras apresentam edema intenso que pode impedir a abertura dos olhos e a conjuntiva apresenta-se intensamente hiperemiada e quemótica.

Conjuntivite alérgica sazonal (ou febre do feno) deve ser considerada separadamente da conjuntivite alérgica aguda. Embora de aparecimento também agudo, o início é menos dramático e os sinais e sintomas pioram à medida que o paciente é exposto ao alérgeno, isto é, o pólen.

Na conjuntivite alérgica perene os pacientes apresentam sintomas contínuos, que duram o ano todo, porém brandos. O alérgeno é, frequentemente, o ácaro.

A ceratoconjuntivite primaveril (ou ceratoconjuntivite vernal) é mais frequente em regiões de clima quente e seco, principalmente no Mediterrâneo, África, Índia e América do Sul.

Acomete principalmente meninos, dos 7 aos 10 anos de idade. Tende a ter resolução espontânea depois de cerca de 5 a 8 anos de doença, mas o tratamento é fundamental para melhorar a qualidade de vida desses pacientes e evitar as principais complicações. Apresenta três formas:

- Palpebral: caracterizada pela presença de hipertrofia papilar na conjuntiva palpebral superior. As papilas podem coalescer e formar papilas gigantes, geralmente maiores que 1mm (aspecto de paralelepípedo).

Papilas gigantes
Papilas gigantes
- Límbica: hipertrofia de papilas no limbo, que tendem a coalescer e deixar o limbo com aspecto “gelatinoso” e acinzentado em toda a sua extensão.
Limbo Gelatinoso
Limbo Gelatinoso

- Mista: Associação das formas papilar e límbica.

Outras alterações incluem:

- Pontos de Horner-Trantas: são pontos esbranquiçados formados por coleções de células epiteliais degeneradas e eosinófilos, característicos de alergia ocular. Podem estar localizados no limbo, na conjuntiva bulbar e na superfície da córnea.

Pontos de Horner-Trantas
Pontos de Horner-Trantas

- Alterações da superfície da córnea: ceratite epitelial punctata pode ocorrer devido ao efeito dos mediadores inflamatórios liberados pela conjuntiva e do atrito mecânico das papilas gigantes sobre a córnea. À medida que as áreas de lesão epitelial coalescem, pode haver erosão franca e resultar em úlcera em escudo (Figura a seguir).

Úlcera em escudo

A dermatocerato conjuntivite atópica acomete geralmente indivíduos com mais de 40 anos de idade que desenvolvem simultaneamente quadro de dermatite atópica e, muitas vezes, asma ou rinite. Também descrita em crianças. Devido à cronicidade e maior possibilidade de desenvolver alterações corneais, é considerada a mais grave das alergias oculares.

Os sintomas, presentes o ano todo, são mais intensos no inverno, e caracterizados por prurido, lacrimejamento e fotofobia.

Ao exame, é característica a perda das partes laterais dos cílios e sobrancelhas (Sinal de Hertoghe) pelo ato constante de coçar. As pálpebras apresentam descamação, a pele é ressecada e pode ter o aspecto macerado, com formação de linhas ou dobras extras na pálpebra inferior (Linha ou Dobra de Dennie-Morgan).

A hipertrofia das papilas é maior na conjuntiva palpebral inferior e é frequente a formação de fibrose e cicatrizes na conjuntiva, o que pode resultar em olho seco secundário e obstrução do canal lacrimal.

Pontos de Horner-Trantas também podem estar presentes.

É frequente o envolvimento da córnea, com ceratite punctata, ulcerações e, em cerca de 60% dos casos, pode haver neovascularização periférica e formação de extensas cicatrizes na superfície corneal.

Lesões típicas de dermatite atópica são comumente vistas em várias partes do corpo, especialmente na testa e nas dobras dos membros superiores e inferiores.

A conjuntivite papilar gigante caracteriza-se pela presença de papilas gigantes (com mais de 0,3 mm) na conjuntiva palpebral superior.

Representa uma reação imunológica desencadeada pelo atrito mecânico prolongado da conjuntiva palpebral superior com lente de contato, prótese ocular, fio de sutura exposto, extrusão de cintas esclerais e bolhas filtrantes.

Diagnóstico diferencial em alergias oculares

Olho seco, blefarite, conjuntivites infecciosas, ceratoconjuntivite límbica superior.

Comprovação diagnóstica em alergias oculares

O diagnóstico de alergia ocular é essencialmente clínico. Exames laboratoriais podem auxiliar na detecção do alérgeno ou na confirmação do diagnóstico em alguns casos selecionados.

Raspado conjuntival ou citologia de impressão com coloração de Wright pode revelar a presença de eosinófilos.

Avaliação do filme lacrimal para detectar a presença de imunoglobulina E.

Testes cutâneos:

- Teste de punctura ou prick test.

- Patch test.

- Teste cutâneo intradérmico.

- RAST (radio allergo sorbent test).

Como cuidar de paciente com alergia ocular

- Evitar o alérgeno representa pelo menos 50% do tratamento e consiste na orientação ao paciente sobre como evitar o contato com o fator desencadeante da crise.

- Compressas frias com água filtrada ou água limpa promovem alívio.

- Lágrimas artificiais geladas ajudam a diluir o alérgeno e os mediadores da inflamação presentes na superfície ocular.

Cirurgia em alergias oculares

É importante lembrar que ceratoconjuntivite primaveril é uma doença autolimitada e qualquer procedimento cirúrgico irá submeter o paciente, geralmente crianças, a riscos desnecessários, de modo quecirurgias são indicadas apenas nos casos graves e refratários ao tratamento. Casos graves de úlcera em escudo de repetição, apesar do tratamento clínico, com papilas gigantes exercendo papel importante na patogênese e manutenção da lesão de córnea, podem ser tratados cirurgicamente com remoção das papilas gigantes e recobrimento com conjuntiva.

Tratamento da Conjutivite Papilar Gigante

Lentes de contato devem ser suspensas por pelo menos 4 semanas. Após a suspensão da causa, a melhora dos sinais e sintomas é obtida com o uso de estabilizadores de membrana e anti-histamínicos tópicos.

Tratamento da Úlcera em Escudo

Depósitos de fibrina sobre a úlcera devem ser mecanicamente removidos, pois dificultam a cicatrização. São geralmente indicados corticoides potentes em altas doses associados a um estabilizador de mastócitos.

Evolução e prognóstico em alergias oculares

Alergia ocular não tem cura, mas em crianças tende a melhorar com o tempo e, muitas vezes, desaparece. Com tratamento adequado é possível manter uma boa qualidade de vida e evitar complicações.

Prevenção em alergias oculares

Os pacientes devem ser orientados a não ter contato com o alérgeno. No caso do pólen, evitar abrir portas e janelas nas primeiras horas da manhã, quando ocorre maior liberação do pólen, principalmente nas épocas de polinização.

No caso do ácaro, que é o principal alérgeno, os pacientes devem ser orientados sobre cuidados com a casa e o ambiente de trabalho. No quarto, devem usar protetores de colchão e travesseiro, evitar objetos que promovam maior acúmulo de poeira, e evitar tapetes, carpetes e cortinas de tecido.

Os pacientes devem ser lembrados que animais domésticos, além da pele do animal que é altamente alergênica, contêm enorme quantidade de ácaro nos pelos.

Orientações ao paciente de alergias oculares

Os pacientes devem ser orientados que a alergia ocular, de modo geral, não tem cura, mas os pacientes devem ser tratados adequadamente, evitando contato com os alérgenos e tratando com medicamentos, quando necessário, a fim de que possam ter uma boa qualidade de vida e sem complicações, decorrentes principalmente do envolvimento corneal. Corticoides devem ser usados com extrema cautela, pois, ao mesmo tempo que promovem melhora expressiva do quadro alérgico, podem estar associados a efeitos colaterais graves.

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Dra.  Maria Cristina Nishiwaki-Dantas e Dr. José Ricardo de Abreu Reggi

Farmacologia e terapêutica ocular, tema oficial 2013: Conselho Brasileiro de Oftalmologia/ Marcos Ávila e Augusto Paranhos Jr. – 1. ed. – Rio de Janeiro