As primeiras lentes intraoculares (LIO) foram propostas e implantadas por Harold Ridley, em 1949. Elas eram feitas de polimetilmetacrilato (PMMA) e tinham um desenho parecido com o do cristalino humano, com a parte óptica grande (8,35 mm) e sem hápticos, muito diferentes das lentes atuais. Com a revolução proporcionada pelo tratamento intraocular da afacia, várias modificações foram propostas, tanto no material quanto no desenho das LIO.

 

Materiais

As primeiras lentes implantadas em olhos humanos, feitas de PMMA, um polímero rígido e inerte, atendiam às exigências da época. Com a evolução da cirurgia de catarata a partir do advento da facoemulsificação, a indústria foi pressionada para a fabricação de LIO que pudessem ser implantadas em pequenas incisões para que todo o benefício da facoemulsificação pudesse ser, de fato, apreciado.

Em 1987, surgiram as primeiras LIO dobráveis, feitas de silicone ou hidrogel, que podiam ser implantadas em incisões pequenas, minimizando assim o astigmatismo induzido pela cirurgia e propiciando uma recuperação visual muito mais rápida.

Novos aprimoramentos no material e no modelo das LIO foram incorporados nas últimas décadas. A utilização do acrílico hidrofóbico na produção das lentes intraoculares, em 1994, trouxe benefícios importantes que fizeram com que essas lentes ganhassem enorme popularidade e se tornassem as mais implantadas da atualidade. Sua excelente biocompatibilidade, alto índice de refração, bordas quadradas que minimizam a formação de opacidade da cápsula posterior, maleabilidade e suavidade na implantação foram os principais fatores para essa popularidade.

 

Modelos

As LIO convencionais são monofocais e têm sua superfície óptica esférica. O raio de curvatura constante dessas superfícies faz com que sua produção seja mais fácil e barata. Elas corrigem o erro refracional do olho afácico e são utilizadas desde a época de Ridley com bastante sucesso. Uma superfície esférica apresenta aumento do poder refrativo à medida que se afasta do seu centro. Os raios que atingem sua periferia têm maior vergência que os raios que passam por sua zona central (raios paraxiais). Isso faz com que os raios periféricos sejam focalizados em um ponto mais próximo da lente que os raios paraxiais. A distância desses focos é denominada aberração esférica longitudinal.

A busca por qualidade de visão e resultados refrativos cada vez melhores fez com que surgissem lentes intraoculares asféricas, que são capazes de minimizar a indução e até corrigir a aberração esférica do olho. Dessa forma, a luz é focalizada em um ponto menor na retina, aumentando a sensibilidade ao contraste e a qualidade da visão, principalmente em ambientes mesópicos.

 

Lentes intraoculares premium

Com a cirurgia da catarata sendo considerada cada vez mais uma cirurgia refrativa, é crescente a demanda por uma forma eficiente de se corrigir o astigmatismo e a perda inerente da acomodação induzida pela cirurgia.

As LIO premium são um grupo de lentes que se propõem à correção do astigmatismo e/ou da presbiopia além da ametropia resultante da retirada do cristalino. Elas se dividem em: LIO tóricas, multifocais e acomodativas.

 

Lentes intraoculares tóricas

A introdução das LIO tóricas foi outro importante avanço na cirurgia de catarata. Com desenhos que possibilitam uma estabilidade rotacional maior, essas lentes ganharam popularidade e são, atualmente, a forma mais precisa e eficiente de se corrigir o astigmatismo corneano no momento da substituição do cristalino por uma lente artificial. Essas lentes visam a corrigir o astigmatismo corneano, não se devendo levar em consideração o astigmatismo refracional no momento da cirurgia. Apesar da publicação de alguns relatos e séries de casos mostrando
implantes bem-sucedidos em astigmatismos irregulares, seu uso é classicamente preconizado em astigmatismos ceratométricos regulares e simétricos.

 

Lentes intraoculares multifocais

A primeira geração de LIO multifocais surgiu na década de 1980. Foram rapidamente descontinuadas devido a resultados desanimadores. Fenômenos adversos, como halos e ofuscamentos, eram frequentes. Além disso, a independência dos óculos nem sempre era alcançada. Desde então, o aprimoramento de materiais, desenho e acabamento, permitiu a redução dos efeitos adversos desses implantes, além da melhoria dos resultados refracionais.

Apesar de o termo multifocal ser amplamente utilizado para essas lentes, a maioria dos modelos é, na realidade, bifocal. Diferentemente
dos óculos multifocais, que seguem o princípio da visão alternada, as LIO multifocais utilizam o princípio da visão simultânea. Nesse princípio,
dois planos focais simultâneos são formados e o paciente utiliza aquele que o interessa em um determinado momento. Assim, imagens diferentes são formadas simultaneamente, sendo uma em foco e a outra fora de foco.

A divisão da luz que essas lentes provocam causa uma perda da sensibilidade ao contraste inerente a todos os modelos e tecnologias baseadas no princípio de visão simultânea.

As LIO podem ser divididas em 2 grandes grupos: lentes difrativas e refrativas. As lentes difrativas apresentam em sua superfície pequenos “degraus” concêntricos, que induzem difração dos raios incidentes. Parte da luz incidente é direcionada para a visão de longe e parte para a visão de perto. Outra quantidade de luz é perdida por reflexão, interferência e dispersão, e não atinge a retina. Essas lentes proporcionam visão de perto que independe do tamanho da abertura pupilar.

As lentes refrativas apresentam faixas concêntricas alternando entre regiões destinadas para visão de longe e zonas, de maior poder dióptrico, destinadas à visão de perto. Assim, o funcionamento dessas lentes depende do diâmetro pupilar. Caso a abertura pupilar seja inferior ao diâmetro da zona central, não haverá multifocalidade.

As lentes multifocais exigem a emetropia para seu melhor desempenho. Astigmatismos ceratométricos superiores a 1D são suficientes para degradação importante da imagem. Assim, a combinação da tecnologia dessas LIO com a das lentes tóricas foi uma evolução lógica e, atualmente, já estão disponíveis modelos de LIO multifocais tóricas capazes de corrigir astigmatismos corneanos moderados. Com isso, um número maior de pacientes pode se beneficiar da correção da presbiopia proporcionada por essas lentes.

 

Lentes intraoculares acomodativas

As lentes acomodativas procuram simular o mecanismo de acomodação natural do olho. Elas modificam o seu poder dióptrico com o estímulo acomodativo. Assim, elas se diferem significativamente das LIO multifocais por não dividir a luz. As lentes acomodativas atualmente disponíveis apresentam mecanismos de ação diversos: deslocamento anterior das lentes de óptica única (Crystalens®, Tetraflex®), aumento da curvatura da superfície da LIO (Nulens®, FluidVision®) e, em lentes de óptica dupla, o afastamento dessas (Synchrony lens®). O efeito acomodativo é proporcional ao poder dióptrico da lente.

Essa tecnologia é a forma mais fisiológica da correção da presbiopia e, provavelmente, no futuro será a primeira escolha dos cirurgiões para restaurar a acomodação com a cirurgia de catarata. Entretanto, até os dias atuais, o efeito acomodativo proporcionado por essas lentes ainda é alvo de controvérsias. Contrações do saco capsular poderiam potencialmente anular esse efeito e até mesmo causar complicações como descentrações e inclinações. Além disso, os modelos atuais exigem incisões maiores para ser implantadas, tendência essa que caminha no sentido oposto aos avanços da cirurgia moderna da catarata.

 

Conclusão

A busca por resultados refracionais mais precisos, qualidade de visão superior e independência dos óculos continua impulsionando o desenvolvimento de novas tecnologias para lentes intraoculares.

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Dr. Fernando Cançado Trindade, Dr. Bruno Lovaglio Cançado Trindade e Dr. Claudio Lovaglio Cançado Trindade

Farmacologia e terapêutica ocular, tema oficial 2013: Conselho Brasileiro de Oftalmologia/ Marcos Ávila e Augusto Paranhos Jr. – 1. ed. – Rio de Janeiro"